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A complexidade da simplicidade O aligot, deliciosa mistura de purê de batatas e diferentes queijos, é um dos pratos mais celebrados do D.O.M. |
É impressionante como uma receita de poucos
ingredientes e paladar infantil, como o aligot, desperta tanto
prazer ao comensal do D.O.M. E não é só pelo sabor e pela textura
da receita, mas também pelo serviço no salão. Como na boa e velha
restauração, o maître estica a mistura entre colheres a uma altura
acima dos olhos do cliente, faz um grande mise-en-scène e pousa uma
delicada porção sobre o prato. Cada serviço, que é quase uma
brincadeira, significa uma pequena comemoração.
Para preparar um bom aligot, não há segredos. Ele é feito de purê
de batatas (apresento a receita a seguir) e queijo. Três pontos
valem ser observados durante o preparo: a altura do fogo, a firmeza
e a constância dos movimentos durante o preparo. O aligot deve ser
feito em fogo baixo porque tanto o purê quanto o queijo sofrem com
temperaturas altas (nos dois casos, elas provocam desacomodação da
gordura dentro da mistura). Se o aligot talhar, não tem jeito, a
receita vai para o lixo e tem de ser iniciada novamente. Esse
preparo não admite erro. Paciência e firmeza de movimentos durante
a execução também são importantes para que haja uma boa
distribuição de calor na panela e para que a mistura fique bastante
homogênea.
Vamos, então, aos detalhes do preparo do purê. Ele deve ser feito
com batatas do tipo rosenthal bem escolhidas e que não sejam
demasiadamente serosas. Para checar isso, basta cortar um pedaço de
uma batata e passar o dedo sobre a superfície descoberta. No
contato, você vai perceber se ela tem naturalmente um pouquinho de
cera. Batatas com cera em excesso não são boas. As ásperas também
não. Elas vão conferir uma textura um pouco
“farinhenta” ao purê. Escolhidas as batatas, vamos
lavá-las, e cozinhá-las com casca em água com sal. Quando elas
começarem a rachar, desligamos o fogo e escorremos as batatas. Com
elas ainda quentes, e com um pano para proteger as mãos do calor,
tiramos-lhes a pele, puxando-a com uma faca de ofício.
As batatas têm de estar quentes ao terminar a operação, por isso,
ela tem de ser rápida. Depois de descascadas, vamos amassar as
batatas duas vezes, e passar por uma peneira muito fina. O
resultado dessa operação tem de ser uma massa com textura bem
homogênea. Vamos então somar manteiga e creme de leite e emulsionar
vigorosamente. Você pode parar o processo nesse momento e resfriar
o purê. Mas nunca resfrie a mistura coberta. O líquido resultante
da evaporação pode condensar sobre a cobertura, pingar sobre o purê
e azedá-lo. Uma vez em temperatura ambiente, o purê pode ser levado
à geladeira.
O clássico aligot é preparado com dois tipos de queijo, o tome de
cantal ou o laguiole, que, por acaso, é o nome da cidade onde
nasceu (e tem restaurante) um dos meus maiores ídolos da cozinha,
Michel Bras. Ele usa o laguiole para preparar o aligot. Na nossa
versão tupiniquim, usamos queijo-de-minas padrão (ao qual
infelizmente falta padrão) e um segundo queijo, que vai conferir
boa elasticidade à mistura. Aqui, vale lembrar que a elasticidade
do queijo é diretamente proporcional à quantidade de gordura
contida nele.
Meu segundo queijo costuma ser um bom e autêntico Gruyère.
Geralmente, usamos 50% de cada um deles, mas se o minas padrão
escolhido estiver bastante cremoso e com a gordura ideal, é
possível diminuir bastante a quantidade do Gruyère. Já consegui
fazer bons aligots com 100% de queijo-de-minas padrão, e garanto
que é a melhor versão da receita.
Voltando ao preparo, vamos ralar o queijo com um ralador manual.
Como ele é macio, é natural que acabe grudando um pouco, mas não se
preocupe, isso não vai atrapalhar. Para finalizar a receita, em uma
panela, vamos aquecer o purê de batatas, somar um pouco de creme de
leite e, mexendo vigorosamente, juntar, aos poucos, primeiro, parte
do queijo-de-minas, conferindo a consistência e, em seguida, um
pouco de queijo Gruyère. Vamos proceder assim sucessivamente até
atingir o ponto desejado. Mais uma vez repito, o fogo deve ser bem
baixo. Como podemos ver, não existe segredo na receita, mas
paciência e método. E só o exercício levará à perfeição.
Um dos momentos mais felizes da minha vida foi o dia que recebi no
D.O.M. o Sébastien, filho de Michel Bras, e Roger, seu
braço-direito da vida inteira. Terminei a refeição servindo minha
versão do aligot, que foi aprovada por eles. Os dois acharam
divertido encontrar num país tropical uma preparação tipicamente
alpina, e aprovaram as mudanças de queijo que, segundo eles, rendeu
uma receita um pouco mais leve, menos engordurada e com sabor um
pouquinho mais delicado. Aligot não é salgado, aligot não é doce. É
um prato de transição. Nos menus-degustação europeus, entre os
pratos quentes (ou os salgados) e as sobremesas, há sempre uma
preparação intermediária. E, lógico, os queijos costumam reinar
nesse momento.
O Brasil, é fato, vem melhorando a qualidade de seus queijos, mas
eles ainda estão distantes do padrão europeu (resultante de séculos
de tradição no preparo). Por muitos anos, ofereci aos clientes uma
tábua de queijos sem custo algum, que era solenemente recusada. O
aligot veio então preencher essa lacuna. E é hoje uma vedete do
restaurante. Há pessoas que até passam do limite. Pedem aligot como
entrada ou para acompanhar peixes. Queijos pedem muita atenção em
suas combinações. Não devem ser servidos com ingredientes de sabor
delicado. E ao contrário do que se imagina, poucos vinhos fazem boa
parceria com essa receita. Por isso, quando os clientes pedem para
abrir a refeição com aligot ou combiná-la com peixe, me recuso a
servir. Claro, sempre oriento meus profissionais a explicarem o
porquê daquela decisão e a oferecer uma porção de aligot à mesa
toda antes da sobremesa. Infelizmente, nem todos entendem, e alguns
vão embora, batendo os pés. E assim continuará sendo porque vou
manter meus princípios. Fiz essa coluna para dividir esse clássico
com vocês. Para chamar a atenção de que nem sempre o simples é
fácil de fazer. E ainda para dizer que nossa profissão é serviçal,
não servil. O “não” ao cliente é algo que evitamos ao
máximo, mas quando necessário, tem de existir!
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Alex Atala
Chefe e proprietário do restaurante D.O.M., em São Paulo
Extraído de:
http://prazeresdamesa.uol.com.br/gastronomia/exibirMateria/20/a-complexidade-da-simplicidade






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